quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mauritânia: areia, calor, "condutores inshalá" e a história do bom ladrão

 
Entrei na Mauritânia, vindo do sul, pelo posto fronteiriço mais pequeno. Rosso, o principal ponto de passagem entre o Senegal e a Mauritânia tem a fama de ser "complicado", com problemas de corrupção e longas demoras.
Confesso que contra alguns conselhos ia mesmo utilizar a principal passagem como entrada pois sabia que a estrada era alcatroada e nesta fase, queria dar um um pouco de descanso à fatigada Miss.
O certo é que sai de manhã de St. Louis e em menos de uma hora já estava na fronteira, apercebendo-me apenas ali, que não estava onde imaginava, mas no posto mais pequeno: Massene, ao que parece.

Ali, sem qualquer dificuldade, perguntas ou assédio entrei na Mauritânia.
Imaginava já a continuação da bela estrada asfaltada que tinha seguido até aí, mas nada disso encontrei, pelo menos durante uma centena de quilómetros, onde apanhei troços de areia solta, depois de um estradão.
Nada do que não tivesse habituado, mas a certo momento pensei estar perdido e ainda hoje tenho dúvidas se aquele era mesmo o único caminho a seguir.
A total ausência de sinalização, o GPS sem grande detalhe e com um mapa de escala desadequada, a navegação não foi das mais fáceis, ainda mais com parte da estrada em obras e sem ver um único carro no espaço de duas horas.
Contudo sabia que seguia para norte, na direcção que pretendia, e mesmo com estradas complicadas para guiar a pesadona mota,  lá fui seguindo, evitando por muito pouco várias quedas na areia mais solta.
Acabei por encontrar a estrada alcatroada que me levaria a Nouakchott, a capital da Mauritânia.

Pelo caminho tomei o primeiro contacto com uma África completamente diferente do que estava habituado: as casas de adobe e palhota deram origem a tendas nómadas, grande parte das pessoas é branca, os embondeiros foram substituídos por palmeiras e a terra vermelha por areia, muita areia, areia por todo o lado.




Acabado de entrar na Mauritânia





Diferentes cenários durante as primeiras horas de condução


Estrada até Nouakchott e sua sinalização: 
Bem-vindo à República Islâmica da Mauritânia


Alcancei a capital a meio da tarde, sob um forte calor e fui até um albergue onde estavam alojados os meus amigos estónios, "presos" ali há mais de uma semana, com problemas mecânicos.
Quando estivemos juntos em Bamako, tinha eu na altura uma fuga de óleo, embora pequena, na caixa de velocidades da Miss, e estivemos a ver o que poderíamos fazer.
Uma vez que o óleo que escorria era pouco e o trabalho necessário para reparar aquele problema muito, para não falar das peças que era necessário mandar vir de Portugal, optei por seguir viagem e apesar de a fuga ter continuado até hoje, assim vou seguindo, repondo o nível com alguma frequência.

Entretanto naquela altura, em que estivemos uns dias juntos em Bamako, eu decidi rumar ao sul do Senegal e passar na Guiné e a decisão deles, com a recusa da embaixada do Senegal em lhes conceder visto, foi a de irem directamente para a Mauritânia (por algum motivo os estónios têm bastantes dificuldades para entrar em alguns países, para não falar na ausência total de embaixadas em África, o que torna a viagem deste casal numa grande aventura).

Assim, depois do Margus ter estado a recuperar de paludismo em Bamako, o casal seguiu directamente para Nouakchott onde chegaram com uma fuga de óleo, precisamente o mesmo problema que tínhamos estado a ver, semanas antes, na Miss.
Para azar do Margus e da Karina, a fuga na mota deles (uma GS igual à minha) era grande e não conseguiam seguir viagem sem reparar aquela situação.
Sendo o Margus um experiente viajante (estão a viajar há quase três anos, por todo o mundo) e um bom mecânico, desmontou a caixa de velocidades e encomendou o que precisava.
 
Depois de mais de uma semana de espera recebeu quase tudo o que era preciso para seguir viagem. Quase, pois quando estava a montar percebeu que também uma das anilhas que serve para selar a caixa se tinha partido e só com paciência e "muitas voltas", conseguiram "fabricar" uma, num serralheiro local.

Bem, resumindo, a Mauritânia não é dos melhores sítios para avariar, por variadíssimas razões.
Apesar da longa espera na cidade, o casal estava quase a resolver aquele problema quando eu os alcancei.



A GS do Margus e da Karina estava neste estado...


O quarto deles estava transformado em oficina/armazém de peças
Até a fechadura da porta se tinha avariado e teve de ser arrombada,
 para desespero da Karina...


O meu quarto era só desarrumação , mesmo...:)


Fiquei na cidade três dias, tempo suficiente para conhecer algumas coisas como o mercado de peixe e a praia onde centenas de pequenos barcos tradicionais diariamente descarregam a fauna do dia. 

A cidade é muito particular, nada parecido com o que tinha visto até então, e no geral gostei de ter lá estado, deliciando-me sobretudo em ficar numa qualquer esplanada da cidade até de madrugada a observar a sua vida nocturna.
Uma vez que durante o dia faz um calor difícil de suportar, a cidade, principalmente nas esplanadas, ganha vida durante a noite, onde homens (apenas os homens), bebem café e chá entre um jogo de cartas ou damas.

O país obteve a sua independência da França em 1960 e a capital foi  atribuída a Nouakchott, uma pequena aldeia colonial, onde 90% da população ainda era nómada.
As primeiras impressões da cidade podem não ser as melhores para a maioria da pessoas que por aqui passam e que apenas vêem nela um conjunto desarmonioso de edifícios, rodeados por areia, a poucos quilómetros do mar, em pleno deserto.
Não existem monumentos assinaláveis, espaços culturais de relevo; apenas mesquitas, umas quantas avenidas, pequenas casas e areia, muita areia. Além do mais, é quente...muito quente, acreditem.

Vê-se também muito lixo espalhado pelas ruas, e o trânsito, longe de ser tão caótico como em outras cidades africanas, não é "doce" de enfrentar, sobretudo pelo comportamento dos condutores e pelas "carcaças" que circulam nas ruas.
De longe, os carros, carrinhas e camiões em pior estado que eu vi na minha vida, mesmo depois de passar por trinta países em África, onde, acreditem, vi muita coisa.
O estado destas viaturas assusta... Parece que depois de terem sido enviados, já em mau estado da Europa para África, por lá andaram muitos anos e por fim chegaram aqui para morrer de vez.

A condução praticada também é de assinalar. Muitos destes condutores não tem qualquer noção do que é conduzir numa estrada onde, por acaso, até circulam outros..:)
Apelidei-os assim de "condutores inshalá" (inshalá significa "se Deus quiser" e é uma expressão muito utilizada aqui) pois em terras islâmicas tudo é colocado na mão de Deus e na cabeça de muitas pessoas, os acidentes só acontecerão "se Deus quiser".
Claro que não será influenciado pelo estado miserável dos carros que circulam na rua, nem pela total falta de respeito pelas regras de estrada e pelas outras pessoas que também por ali circulam...

Consegui por várias vezes evitar ali ter acidentes com a Miss, pois os carros simplesmente ignoravam-me e atravessavam-se à minha frente. Pouco depois, decidi que o melhor era deixar a Miss no albergue e andar de táxi.
Visitei, assim, algumas partes da cidade, dentro de um Mercedes (isto é, o que restava do que foi há muito tempo um Mercedes) com a Miss descansada, longe dos "ataques" destes malucos cheios de fé mais com muito pouco jeito para conduzir.

Tinha poucos dias no meu visto e tive, com grande pena minha de seguir para norte, em direcção a Nouadhibou, uma cidade costeira, a pouco mais de quatrocentos quilómetros, já perto da fronteira com o Sahara Ocidental.
Durante toda esta viagem, tive poucos momentos em que tivesse tido tanta pena como ali, por não me restar mais tempo no país e não puder visitar mais da região.

Gostaria de ter ido para Este, explorar um pouco a região de Adrar, por exemplo.
Que fabuloso me parece ser a Mauritânia, um lugar à parte neste já tão interessante continente.



Saindo um pouco do alcatrão tudo é areia





Ás voltas por Nouakchott a bordo do
que terá sido um Mercedes em outros tempos













A praia perto da cidade, onde centenas de pessoas esperam
diariamente os barcos carregados de peixe

Despedi-me do Margus e da Karina, que haviam de seguir o meu rumo um dia depois, e segui para norte.
Estava muito vento e um calor fora do normal, mesmo para padrões locais, com o termómetro a passar dos 45ºC.
A estrada até Nouadhibou é uma faixa de alcatrão no meio de um deserto de paisagem, com poucos locais para parar, para beber algo ou pôr gasolina.
Numa das vezes que parei, pedi uma bebida fresca numa barraca no meio do nada e um senhor, já bastante velho, comentou comigo:

- "Hoje está bastante calor e muito vento..."

Compreendi assim que mesmo para os locais, aquele era um dia anormal pelo vento fortíssimo (que trazia areia) e pelo calor que estava.
Com o fato bem fechado, e a tentar cobrir todas as partes do meu corpo, fiz aqueles quilómetros, sem sequer puder abrir um pouco a viseira do capacete, de tão quente que estava o ar.
Parei algumas vezes para tirar fotografias e refrescar-me, isto é tentar refrescar-me, pois a água que trazia comigo estava mais quente do que muitos chás que habituei-me a beber por estas terras.


Estrada Nouak-Nouadi



A brincar nas dunas de areia junto à estrada


Se a Miss não fosse tão pesada nesse dia tínhamos
sido arrastados pelo vento até ao mar



Paragem para me refrescar, ou talvez não.
Depois de ter queimado a cabeça deixei-me destas cenas...


Em Nouadhibou procurei um sitio para ficar, acabando por encontrar um grande parque, vedado por um muro alto, local frequentado e conhecido por viajantes  e overlanders que passam na região.
Uma vez que os quartos tinham poucas condições e o preço pedido era elevado, resolvi montar a minha tenda e pernoitar ali antes de rumar a Marrocos.
Ali, dois ou três carros estavam acampados, mas no momento em que cheguei todos os ocupantes pareciam estar fora, e instalei-me assim como tantas outras vezes, noutros locais parecidos.

Depois de montar a tenda e tomar um banho refrescante fui dar uma volta pela cidade, ver os barcos encalhados, um conhecido e triste postal daquela cidade, e comer algo.
Cheguei tarde e já cansado dormi descansado, tendo as estrelas como cenário. E que bela maneira de se adormecer, olhando um céu estrelado, num clima quente.

De manhã quando despertei vi imediatamente que tinha um pequeno rasgão na tenda (que estava apenas com a rede, sem a cobertura impermeável) e a minha bolsa tinha desaparecido. Aí tinha tudo, os documentos da mota, o meu passaporte, o meu cartão Visa, o dinheiro, o telemóvel...tudo.
Abri de imediato a tenda e falei com as pessoas, outros viajantes, que estavam no local.
Eles tinham visto alguém dentro do recinto, estranharam mas depois de ele dizer que era um funcionário, deixaram o caso e  não fizeram caso. Mesmo depois de o verem agaixado, junto da minha tenda, uma vez que não me tinham visto a entrar, pensaram que ele poderia ser ele o dono da mota.

Bem, a minha situação não estava boa: encontrava-me sem nenhum documento e dinheiro, na Mauritânia (se não é um bom país para avariar, o que se poderá dizer sobre ficar sem qualquer documento?!), um país complicado e ninguém responsável daquele espaço parecia fazer nada.
Além disso, nenhum deles falava inglês e pareciam não querer chamar a policia para tomar conta daquele assunto.

Fui imediatamente dar uma volta pelo exterior do recinto pois em casos deste tipo tenho a ideia que quem rouba, muita vezes deita os documentos fora perto, do local..
Mas depois de não ter encontrado nada, entrei de novo no parque onde um sul-africano, hóspede como eu,  me disse que na Mauritânia, os documentos (especialmente os europeus) costumam ser bastante valiosos e procurados; seria díficil, desse modo, conseguir encontrá-los.

Sinceramente não estava nervoso, nem tão pouco assustado. As coisas tinham de se resolver, pois já não devia ser o primeiro caso de um viajante assaltado.
Também, depois de tudo o que já me aconteceu na viagem (nada de grave, no entanto), aprendi a manter-me calmo em situações deste tipo, sabendo que o facto de estar nervoso em nada irá ajudar a resolver a situação.
 
Nesse momento o sul-africano dizia-me:

- "Epá, eu vou amanhã para as Ilhas Canárias (Espanha) e podes vir comigo e depois tentar apanhar um transporte até Portugal. Vai ser difícil saíres da Mauritânia assim sem qualquer documento e Portugal não tem embaixada aqui... Epá, tens de te decidir rapidamente pois vou agora para o porto..."

Estava eu a estudar as minhas possibilidades e a aperceber-me aos poucos de que aquela situação era bastante delicada quando, de regresso à tenda,  vi a bolsa caída no chão.
Depois de a abrir, apesar de remexida, tudo estava lá com excepção do dinheiro, uns 40 Euros em moeda local.
De resto,  passaporte, papéis com contactos, documentos, até o cartão Visa, estava no interior.
 
Quem a roubou, depois de saltar o muro e retirar o dinheiro, voltou, mais de uma hora depois, e atirou a bolsa novamente para dentro do recinto...

Sorte?! Pois, pode-se dizer que sim.
Tanta coisa podia ter acontecido ao longo desta viagem: tantas vezes tive quase a cair e quase a ter um acidente, tantas vezes carros e camiões passaram a centímetros de mim, tantas vezes poderiam ter sucedido coisas que não aconteceram, ou aconteceram mas acabando tudo por resolver-se pelo melhor.

Sei que sou uma pessoa que tem o que se pode chamar "sorte" e dou muito valor a isso.
Refletindo um pouco, vejo que muitas das coisas que se vão passando (seja na viagem ou ao longo da minha vida) e a maneira como se vão resolvendo têm muito a ver com a forma como as encaro e principalmente com a forma com  lido com elas.
Quem me conhece sabe que sou uma pessoa positiva, um optimista e a vida sempre foi boa comigo.
Porém, desta vez tenho consciência que tive a "estrelinha" do meu lado, comigo uma vez mais, e dou graças por isso.
Quanto ao ladrão, arriscando-se a ficar sem uma mão, se fosse apanhado, foi o que se pode chamar de um "bom-ladrão", resolvendo por algum motivo, não terminar ali com a minha viagem.

Horas depois do sucedido estava a entrar em Marrocos, sem qualquer dificuldade ou contratempos.

Ao chegar a Noadhibou, depois de montar a tenda


Final de tarde na cidade



De manhã, com os documentos recuperados
e com o rasgo na tenda


Acampamento a evitar em Nouadhibou...




Estrada para o Sahara Ocidental (Marrocos) e
zona "no-man´s-land" entre os dois países



Marrocos foi sem dúvida a cereja (mais do que uma cereja digo, agora a poucos dias de sair de África, uma pérola) no topo de um grande e saboroso bolo recheado de aventuras, uma viagem inesquecível que tive a sorte de ter podido realizar na minha vida.

Sai da Mauritânia, como já disse com muita pena de não ter explorado melhor aquele fabuloso país.
Um dia conto voltar...inshalá!!!


3 comentários:

  1. Caro Gonçalo,

    Estou a ver a aventura a ficar mais estreita e já com o fim à vista. Calculo que já devas estar a entrar novamente na pátria e com isso o fim deste capitulo (Tsiklonaut e Margus já chegaram a PT pelo que avalio que tu também).
    Como leitor assíduo desta tua partilha vou ficar com pena do fim deste teu conto.
    Só me resta esperar que quando chegares a Portugal regresses novamente a Luanda pelo percurso inverso ou desta vez resolvas cruzar o oceano para outras paragens e diferentes paisagens.

    De quem viaja de moto mas apenas no conforto da Europa, vou folheando este blog admirando a força de vontade de ultrapassar adversidades, a alegria com as pequenas e insignificantes coisas que é o ensinamento mais inesperado que viver em África nos dá.
    Pode ser que quando regresse de Luanda a casa o faça de moto como estás a fazer mas após 4 anos cada vez essa ideia se dissipa mais, quiçá qualquer dia.

    Abraço,
    Alberto Neves

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  2. olá...nao tinha qualquer conhecimento desta aventura feita por Africa.sou cámionista e como tal o meu sonho éra viajar desta maneira por Africa numa moto 4 de preferencia..dou os parabens ao gonçalo pela coragem e determinaçao k teve para esta aventura...gostava imenso de ter um contacto kualker do gonçalo ou mail...pelo menos duas perguntas gostava de lhe fazer...kuantos fizeram parte desta aventura estao todos de parabens.... o meu contacto é jcms5@hotmail.com obrigado

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  3. Oi, Gonçalo, tudo bem? Estou escrevendo uma matéria pro blog Viaja, Bi! e usei uma foto sua para ilustrar uma fala da Mauritânia, tudo bem?
    Obviamente, estarão devidamente creditadas e com link pro seu blog. Se não concordar, por favor, me avise, que tiro do ar e consigo outra imagem, ok?
    A matéria vai ao ar amanhã pela manhã.
    Obrigado.

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