sexta-feira, 8 de julho de 2011

Gabão (e a procura da faísca perdida)

Já dentro do Gabão as estradas mantiveram-se em terra batida. Após uns quilómetros dentro do país parei no que pensei ser o posto fronteiriço, para ser carimbado o passaporte, e logo um militar veio falar comigo:

- "É aqui que me carimbam o passaporte?!" - perguntei.

- "Não, tem de seguir até N´Dendé, uns quarenta quilómetros à frente. Lá irão carimbar-lhe o passaporte". - disse-me.

- "E a estrada como está? Está assim como a do Congo?" - tentei saber, receoso.

Bem, o que tentei dizer foi isso, mas no meu francês as coisas saiam-me mais ou menos assim:

- "La route c´est come ça?" - dizia apontando para a estrada; "Congo c´est pas bon, anh?!"

Ainda assim ele percebia-me, dizendo no seu inglês esforçado:

- "There is Congo. Here good road. Dirty road but good. There (referindo-se aos seus vizinhos, o Congo) roads no good. Houses no good. Here houses good and road good. Welcome to Gabon!"

Assim foi a minha entrada no Gabão.

De facto, as estradas apesar de serem em terra batida com alguma gravilha em determinadas zonas (tornando a condução muito escorregadia e perigosa), melhoraram bastante e deixei de me preocupar em encontrar uma vala ou um grande buraco no meio da estrada.
Conduzia assim com mais confiança e aumentei o ritmo tendo chegado a N´Dendé no final dessa tarde.

Depois de ter tratado das formalidades (muito poucas) da entrada no país,  procurei a igreja da vila e pedi a uma das irmãs responsáveis que me deixasse montar acampamento no espaço relvado adjacente às instalações.
Sem demoras, montei a tenda, conversei um pouco com as simpáticas irmãs, comi o que tinha comprado num mercado local e apressei-me a deitar.
Tinha sido um dia muito cansativo e sabia que o seguinte iria ser intenso.

Melhores estradas mas os mesmos camiões
e poeira encontrei do lado do Gabão



Na pequena vila de N´Dendé acampei no relvado de uma igreja.
A "irmã" mostrou-se curiosa com as bandeiras dos países que já atravessei.


O Gabão, ex-colónia francesa, tornou-se independente em 1960 e é um dos países mais prósperos nesta região do continente com o maior IDH (índice de desenvolvimento humano) na África Subsariana.
Os primeiros europeus a chegarem ao actual Gabão foram comerciantes portugueses, no século XV, baptizando a região com esse nome. Gabão é um espécie de casaco, cujo formato lembrava o do estuário na foz do rio Komo, na região.
Como em muitos outros locais em África, também os portugueses fizeram da costa gabonesa um lucrativo entreposto de escravos.
Mais tarde, no século seguinte, vieram os comerciantes holandeses, britânicos e franceses.
A França assumiu o estatuto de "protectora" do território após assinar um tratado com os chefes tribais locais em 1839 e quando, em 1849, os franceses capturaram um navio de escravos, libertando-o, foram os próprios escravos a baptizarem o local onde ocorreu o episódio de Libreville (cidade livre, em francês).

A França ocupou formalmente o Gabão em 1885 mas só começou efectivamente a administrá-lo em 1903 e no ano de 1910, o Gabão tornou-se um dos territórios da África Equatorial Francesa, uma federação que existiu até 1959.
Todos estes territórios tornaram-se independentes em 1960, dando origem aos países da República Centro-Africana, Chade, Congo-Brazzaville e Gabão.

 A enorme riqueza do Gabão é devida ao seu muito valioso subsolo e não só: magnésio, diamante, petróleo, gás natural, ferro, madeira, urânio com fartura e um  potencial inacreditável para o eco-turismo, com uma biodiversidade de plantas e animais única, florestas tropicais, praias de areia branca, savanas, rios, lagoas, montanhas, etc. Este parece ser um país abençoado.

Apesar de todas as receitas que advém destes recursos servirem para modernizar o país e fortalecer a economia gabonesa, para a maioria da população esses benefícios parecem ser bastante moderados e pelo que vi, fora da capital, o seu modo de vida continua muito parecido com o dos restantes países na região.
Contudo, na sua capital, os edifícios governamentais são de uma opulência como nunca vi em nenhum país africano.
Para se ter noção de valores, a construção do gigantesco palácio presidencial, na marginal de Libreville, ultrapassou em muito os 300 milhões de dólares, como é do conhecimento público.
À semelhança do que acontece em Angola um só partido detém a força e  poder total daquele país, dominando-o por completo.

Desde a sua independência da França em 1960, o Gabão foi governado por apenas três presidentes.
O primeiro presidente do país foi Leon M'Bá, em 1961 e quando este morreu, sete anos depois, foi substituído por Omar Bongo, que governou até sua morte, em 2009, ostentando o recorde de governante há mais tempo no poder num país africano.
Como na habitual novela que é a política africana (ou será a política mundial??!), Ali Bongo Ondimba, filho de Omar Bongo, ministro dos negócios estrangeiros do governo do seu país, sucedeu-lhe e continua até hoje no poder.

 
Depois da noite passada em N´Dendé, bem cedo comecei a viagem para norte rumo a Libreville. Não sabia se iria conseguir alcançar a capital nesse dia pois desconhecia o estado da estrada e os mais de quinhentos quilómetros que separam as duas cidades pareciam-me um longo caminho a percorrer. Já há muito que não fazia tantos quilómetros num só dia.

Mas África tem destas coisas: em certas regiões pode levar-se vários dias a fazer apenas 50 quilómetros e um pouco mais à frente, de uma só assentada, fazerem-se 900 (como o fiz em Moçambique).

Nesse dia a condução foi cansativa mas agradável; apetecia-me conduzir e a Miss estava a portar-se bem.
A estrada até Libreville tem de tudo: excelente asfalto, terra batida, alcatrão esburacado e lombas. Tudo para todos os gostos.


Diferentes condições na estrada para Libreville.
Da terra batida passava para asfalto novo onde punha a Miss a rolar
  muito depressa para padrões africanos.



Pude até, na fabulosa estrada de montanha,
gastar um pouco da parte lateral dos pneus
No decorrer daquele dia estava feliz por ter "optado" por pneus de estrada e poder assim aproveitar as estradas de montanha e o seu novo asfalto, para queimar um bocadinho de pneu.
 
Em certas alturas penso, enquanto conduzo (dá para pensar muito quando se passam os dias de rabo sentado numa mota, sem grande coisa para fazer senão isso mesmo...:) ), como seria bom ter um carro de apoio tipo "Long Way Down" ao qual pudesse socorrer.
 
Seria qualquer coisa tipo:
"Epá, troca-me aí os pneus da Miss que agora vamos apanhar uns milhares de quilómetros de asfalto."; "Epá, faz-me aí um cafézinho quente para beber depois da minha refeição empacotada que a Touratech me ofereceu." ou "Epá, troca-me aí o pneu que furou e limpa-me o filtro de ar e muda o disco de embraiagem que queimou e o hall sensor que pifou".
 
Tudo isso daria certamente imenso jeito, pouparia tempo e agradar-me-ia o facto de puder rolar com a mota levezinha.
Para a próxima talvez me meta numa coisa dessas. Hummm, talvez não.

Bem, mesmo sem ter a comidinha em pacotinhos hermeticamente fechados "by Touratech" (que acredito darem jeito em muitas situações) almocei umas sandes de carninha numa barraca local em Lambaréné.
E que bom terem sido os franceses a colonizarem este país. Pelo menos pela comida, não me posso queixar. O pão, saborosos cacetes que até nem precisam de nada para serem deliciosos é óptimo e toda a restante comida que me lembro é saborosa.
Aí está uma das coisas boas desta parte de África: comida.
Não vão para o Quénia, Tanzânia, etc esperando comer bem.
Aqui, nesta costa, especialmente nos países ex-colónias francesas engorda-se, digo-vos eu.

E assim cheguei a Libreville, cansado mas bem alimentado e com muita força.
Fiquei instalado numa pensão perto do aeroporto internacional, num pequeno mas agradável quarto, a um metro da areia da praia.

Chegando a Libreville. Palmeiras e temperatura que não descia dos 27ºC



O fato da mota depois de ter levado com Angola, RDC e Congo.
Finalmente uma caminha...




Mesmo no cacimbo sabe sempre bem um mergulho.
Até nem sou esquisito...




Monumento na cidade de Libreville e vista para o que é,
lá muitoooo ao longe, São-Tomé-e-Princípe.


Apesar de na altura ter achado aquele um quarto caro estava muito cansado e preferi não procurar mais.
Qualquer coisa como 30 USD era o custo diário, mas pensando bem, até  talvez fosse razoável sendo aquela uma cidade cara (a fazer lembrar Luanda). Também só contava ficar por ali o tempo necessário para tirar o visto para os Camarões e depois arrancaria para o interior para conhecer o verdadeiro país.
Mas como já aqui o disse, é complicado planear as coisas em África e pouca coisa acontece da maneira como esperamos.
Depois de ter ido à embaixada dos Camarões (onde me deram o visto depois de umas horas) resolvi dar um mimo à Miss Africa, limpando-lhe o filtro de ar, dando-lhe uma boa lavagem, tirando-lhe toda a poeira acumulada desde Angola. Até a matrícula foi mudada sendo agora uma "miss portuguesa".

Mas pelos vistos a Miss não gostou daquele banho e algumas horas depois, quando ia a rolar normalmente, parou.
No principio achei que fosse apenas um mau contacto eléctrico e depois de levantar um pouco o depósito voltou a pegar e pude passear mais umas horas a conhecer a cidade.
Já com o visto para os Camarões, a Miss lavadinha, tanque de combustível cheio, ida à Internet feita e ao muito bom centro-cultural francês (também aí os francês dão uma lição a todos os outros no que toca à representação e investimento cultural nas suas ex-colónias) e as compras feitas para sair da cidade no dia seguinte, quando ia a caminho do hotel, mais uma quebra.
Uma vez mais foi abaixo: as luzes estavam ligadas, tinha combustível; tudo parecia normal; o motor rodava mas nada de ignição.
Ainda estava a alguns quilómetros do hotel, na avenida da marginal. Sem sucesso tentei reanimar a bicha sem sucesso e não tive alternativa senão empurrar.
Pode parecer fácil empurrar uma mota...só para quem não conhece a pesadona Miss. De depósito cheio (41 litros) e com as malas laterais não deve ser muito mais difícil empurrar um carro.
E até me portei bem fazendo uns quilómetros a arrastar a mota, aproveitando o facto de estar na marginal, uma estrada de asfalto plano com algum espaço na berma.
Contudo um pouco depois tudo se complicou pois teria de atravessar um viaduto com alguma inclinação. Era escuro, não conhecia ninguém na cidade e estava sozinho. O que podia fazer?!
 
Bem, geralmente tenho sorte em alturas como esta e pouco depois apareceu um casal que fazia exercício no local, oferecendo a sua ajuda.
Acontece que o senhor tinha uma mota um pouco mais à frente (uma potente Yamaha 1000) e ofereceu-se para ajudar.
Decidimos então rebocar a Miss até ao hotel uma vez que eu tinha uma corda numa das malas para situações de emergência.
 
Foi uma operação arriscada, devo dizer.
Em primeiro lugar era já noite e aquela avenida é muito movimentada; depois tivemos de seguir pela berma em contra-mão e obviamente porque rebocar uma mota é sempre uma coisa bastante perigosa (da última vez que o fiz, em Luanda há uns anos atrás, a certa altura, a uns 80km/h, assustei-me e travei tendo caído e tendo a Miss sido arrastada no asfalto uns bons 30 metros).
 
Felizmente, desta vez tudo correu bem. Chegámos bem ao hotel e apenas o facto de estar com a Miss avariada me deixava preocupado.
Antes de ir embora o senhor que me ajudou falou com o seu mecânico para estar no dia seguinte bem cedo no hotel para ajudar no que fosse preciso.
Tudo isto agora me parece simples mas acreditem que a comunicação foi sempre muito difícil pois os gaboneses simplesmente não entendem inglês.
Não era o caso do senhor que me ajudou mas neste aspecto a maioria dos gaboneses herdaram alguma da arrogância francesa. Ouvi várias vezes dizer:  "mas porque hei de eu falar inglês se todos falam francês?!" Afinal, alguém disse que os Gaboneses se comportam mais como os franceses do que os próprios franceses.     

O que é certo é que no dia seguinte estava lá o mecânico e juntos fomos tentando ver o que poderia ser a causa da avaria.
Não é tarefa fácil, sem grande experiência, ferramentas ou aparelhos de diagnóstico detectar uma avaria deste tipo.
Começamos por ver que não havia faísca nas velas e aí estava a causa do problema da mota, apesar do motor rodar, não tinha arranque.
O facto de nem sequer termos um voltímetro tornou as coisas ainda mais difíceis e demoradas.
Talvez fosse um cabo, talvez fosse a bateria, talvez fosse a centralina, os injectores ou qualquer outra de muitas coisas possíveis.
Liguei para os meus amigos Rui Baltazar e Pedro Caleja na tentativa de me ajudarem a perceber a origem do problema (nestas situações só o facto de termos alguém do outro lado a falar a nossa língua ajuda sempre nem que seja a alma). Falei também com um técnico da BMW em Portugal: podiam ser várias coisas; tinha de começar a eliminar possíveis causas até chegar ao problema.

E assim, com a minha limitada experiência fui mexendo na máquina: mudei a bateria, que tinha um dos pólos partido, mudei as velas (já "cansadas" desde Luanda), verifiquei cabo por cabo (uma das coisas que toda esta experiência me deu foi o facto de me ter permitido conhecer melhor cada um dos cabos da mota. Logo que chegar a Portugal tentarei tornar toda a cablagem da Miss mais simples e organizada) mas nada.
Depois de uns dias de verificações, com muito trabalho, nada tinha mudado.
Simplesmente não havia faísca. E sem faísca não há explosão, não há movimento, não há mais viagem.

Porém, através desse mecânico consegui o contacto de um seu amigo que, apesar de não ser mecânico de profissão, conhece muito bem este mundo e tem várias BMW´s.
Não podia ter conhecido melhor pessoa para o trabalho.
Tal como o Congo, também o Gabão utiliza, para a sua polícia, BMW´s. Aqui, toda a polícia e guarda do presidente tem motos desta marca, existindo neste momento dois modelos em circulação: a BMW 650 Dakar e a 1200 RT.
Os modelos anteriores são vendidos ao desbarato e não é difícil dar-de-caras com uma R60, R80 ou até uma 1100 RT.
Este meu amigo comprou várias e fez a dele. A falta de mecânicos e peças tem de ser substituída pelo improviso e no seu caso, teve de aprender tudo sobre a mecânica da sua mota (uma GS800) desmontando-a por completo.
Aqui não há máquinas de diagnóstico, complicadas ferramentas e computadores. Assim, é necessário improviso e muito destreza, sendo pessoas como o Mati  que mantêm as BMW´s a circular neste país.

Depois de uma pesquisa mais atenta sobre os sintomas da Miss vi que tudo apontava para o mesmo: a avaria depois da lavagem, os anos da mota, a falta de substituição de muitas das peças de origem e o sintomas levavam a que fosse um problema no hall sensor, uma pequena placa metálica com dois sensores que está situada junto ao alternador e que "simplesmente" dá a informação à placa central da mota que posteriormente a passa até às velas de que o pistão está no sítio certo para darem a faísca.
Tudo, como disse atrás se resume a faísca. E se estes sensores não funcionarem, logicamente...não há "fire in the hole".
 
No dia seguinte já o meu amigo aparecia com a mochila carregada de peças: injectores, centralina, caixa de ignição, todas as peças que tinha armazenado ao longo do tempo.
Faltava apenas o que no meu caso era importante: um novo hall-sensor.






Uma semana à procura de faísca e por fim,
a retirar a possível causa do problema: sensor-hall


Para descobrir uma nova placa tivemos de deixar passar o fim-de-semana e ir logo na 2ªf, bem cedo, tirar uma de uma das motas desfeitas que existem em vários sítios da cidade.
Ao contrário do que pensei no inicio não é tarefa fácil pois as peças de maior procura são...todas as que costumam avariar, como é óbvio.
Logo assim é fácil encontrar grande parte do motor de uma BMW 1100 ou 1150, mas é difícil encontrar uma bomba de gasolina, um filtro de ar ou óleo, uns pneus ou um hall sensor.
Mesmo assim encontrei alguns. "Apenas" os cabos estava destruídos mas decidimos que iríamos tentar cortar os meus (visivelmente bons) e soldá-los numa dessa placas. Se a causa do meu problema fossem efectivamente dos sensores, então o problema estaria resolvido.
 
O processo de soldar os cabos na placa "nova" foi digna de um filme de suspense.
Os dois, o Mati e eu, sentados no pequeno quarto onde estava alojado, com os corações aos pulos visto tratar-se de um trabalho delicado e com medo de não conseguirmos pôr aquilo a funcionar.
Ainda mais, o material que utilizávamos não era o melhor e o apropriado: o equipamento não era para soldar material tão fino e delicado e as mãos tremiam muito...
A certa altura, interrompi a operação e disse ao Mati que pagava o que fosse preciso mas que era preciso fazer o trabalho bem feito e com as ferramentas adequadas (não imaginam o nível de improviso a que se chega num país africano). 
Ele disse-me que conhecia um sítio na cidade para fazer aquele trabalho e umas horas depois voltava com a placa soldada, pronta para ser aplicada na Miss. Pouco depois estávamos pronto para a testar.
Tentem imaginar a minha ansiedade, o meu coração a bater no peito, uma semana depois de ter chegado à cidade, e testando ali, naquele momento, a mota.
Assim, com as velas de fora, encostadas à cabeça dos cilindros, para ver se havia faísca, ensaiámos e...nada. Nada de faísca.

- "Não pode ser." - diz o Mati.

- "E agora?" - digo-lhe desesperançado.

- "O problema não pode ser este. Eu já te disse. Não pode ser. Que cabo é este?" - pergunta o Mati.

- "Isso é o alarme, como já te disse. Mas o alarme está a funcionar. Não pode ser disto"- disse eu. O cabo de que falávamos é um cabo que foi ligado à posteriori ao cabo que liga na caixa de ignição e que segue para as velas.

- "Eu vou cortar o cabo. Se não for disso eu volto a ligá-lo novamente" - disse-me.

Eu estava por tudo nessa altura e acedi.

E não é que depois de ele ter cortado aquele cabo e ensaiado uma vez mais vimos finalmente a faisca. Uma clara e bonita faisca sair de cada uma das velas.

Pelo que posso dizer agora penso que o problema estava de facto no hall sensor. Mas enquanto testávamos tudo para fazer o diagnóstico, verificando cabos e relês, um cabo que liga ao relê do alarme desligou-se e deste modo, mesmo com o hall sensor a funcionar o alarme cortou a ignição.

O problema estava assim resolvido e estávamos prontos para continuar a viagem.
Na manhã seguinte ainda estive com o Mati, o meu amigo mecânico, sincronizámos os cabos do acelerador e acertámos a posição do hall sensor.
 
Depois das despedidas sai finalmente de Libreville para ver um pouco do Gabão que queria.
Devo dizer que já há muitos meses que a Miss não soava tão equilibrada e é incrivel a diferença que um pouco de afinação pode fazer no comportamento da mota.


Finalmente a faísca e uma fotografia de comemoração


Na manhã seguinte, depois de afinarmos a bicha o Mat pediu-me,
com alguma vergonha, para experimentar aquela BMW.
Foi sem dúvida um dos maiores apaixonados da marca que conheci em África.



Um último mergulho na despedida do mar do Gabão


Para seguir para os Camarões desde Libreville, a rota mais fácil é descer primeiro umas centenas de quilómetros para sul e depois, já no interior, apanhar a estrada em boas condições (a maior parte asfaltada) em direcção a norte.

Atravessei deste modo, uma vez mais para o hemisfério sul, antes de rumar definitivamente para o norte.
A partir dali estarei sempre, até ao final da viagem, a rodar no hemisfério norte, o que marca a minha despedida do lado sul, onde passei tão bons momentos.
O percurso para norte foi tranquilo, atravessando a floresta tropical. Sem apanhar chuva, mas com um grau de humidade bastante grande fiquei feliz por estar de mota. Finalmente tudo estava bem e rolava sem problemas, entusiasmado pelas lindas estradas do Gabão mesmo apesar de não encontrar muitas aldeias pelo caminho. Aquele era um momento feliz.

No final da tarde tinha já feito muitos quilómetros e decidi repousar. Uma vez mais, numa pequena vila, pedi abrigo numa igreja. Desta vez ofereceram-me um quarto nas instalações e assim pude recuperar forças da longa tirada do dia.

No dia seguinte, ainda cheio de "fome de conduzir" sai de madrugada e ao início da tarde estava já a entrar nos Camarões.


Da minha estadia no Gabão vou-me sempre recordar do problema que tive com a mota, do diagnóstico e por fim tudo o que tive de passar para arranjar a peça. Apesar de frustrante e trabalhoso, o facto de ali ter estado nessa situação fez-me ter conhecido pessoas e partes da cidade que de outros modos seria difícil. Senti-me, em alguns momentos como um local, sempre de um lado para o outro em táxis colectivos, a ter de me desenrascar no meu pobre francês, procurando locais para obter a tão desejada peça.
Lembrarei também deste país, a sua floresta, a praia de Libreville (por onde tanto andei com música nos ouvidos para me sentir mais acompanhado) e claro, das baguetes com carne deliciosas e dos croissant com chocolate que comi enquanto esperava a desejada faísca para continuar o meu Caminho. 


Atravessando o Equador. Agora ainda mais perto de casa...



Bonitas as estradas no Gabão, atravessando a floresta tropical


O almoço: sempre nos mercados locais



Estadia num quarto que me foi oferecido pela igreja
numa das vilas a caminho dos Camarões


A chegar aos Camarões

domingo, 26 de junho de 2011

Admirável Congo: mecânica, ninjas e dança.


Muitas vezes confundido com a República Democrática do Congo, o Congo (Brazzaville) oferece um ambiente mais descontraído, uma versão mais segura e menos conturbada que o seu país irmão.

A capital, Brazzaville, aparenta um calma invulgar nos países desta região de África e surpreendeu-me pela positiva.
Depois da cansativa jornada da travessia do Rio Congo, ficámos instalados no Hotel Hippocamp, morada sagrada para todos os que passam por aqui; e percebe-se bem porquê: a estadia é gratuita para os overlanders (viajantes) e a comida é simplesmente fabulosa.
De longe o hotel com a melhor cozinha que encontrei em toda a viagem; creio que será difícil bater aquela comida vietnamita onde tudo é simples e saboroso.

O Olivier, dono e gerente do espaço, juntamente com a mulher vietnamita e os quatro filhos pequenos tornam tudo muito familiar e agradável.
Juntando à simpatia do casal, o facto de ser gratuita a estadia, a comida deliciosa e a cidade agradável podem perceber facilmente porque não me custou muito ficar ali mais do que uma semana.

Acampados numa sala de estar, eu e o Olivier (o francês motard que viajava comigo desde Luanda) aproveitámos para fazer a manutenção às motas e tentar resolver alguns dos problemas que fomos verificando pelo caminho.
Enquanto o francês limpava a terra que tinha no carburador da sua velhinha Honda (o filtro de ar não estava a fazer o seu trabalho), eu tinha de resolver o problema da direcção da Miss África que não estava nada bem, tornando qualquer saída do asfalto muito difícil de controlar.

Ainda antes de resolver o assunto da direcção, na minha regular inspecção visual a tudo o que é componente da Miss, vi que a grade traseira estava a rachar e não tardaria muito, com o saco grande que carrego, a que partisse.
Era assim prudente  tentar resolver ali o problema e não esperar até estar no "mato" e a grade ceder para ter de transportar o saco ao colo.

Bem, cerca de três horas depois a grade partida deixou de ser um problema.
Após esboçado o "projecto", apanhei um táxi até um dos muitos serralheiros que se encontram na berma da estrada de qualquer cidade em África (um semelhante aquele que me soldou o quadro da mota pela segunda vez) e pouco depois tinha a estrutura feita...e pintada.



 Acantonados no Hippocamp em Brazzaville

Aparecimento de uma racha na grade metálica da Miss


Trabalho do serralheiro local: corte de cantoneira em ferro


A preparar-se para soldar (reparem no aparelho - T.I.A.)


Trabalho em curso

Nem o bêbado estendido a poucos metros parece importar-se com o barulho do aparelho


O mestre em acção



Este é o resultado final. Não é bonito mas é resistente.


Com menos um problema para resolver tinha de concentrar-me agora em tentar resolver o da direcção da mota.
Como na medicina por vezes o mais  difícil é fazer o diagnóstico correcto, perceber o que está a causar o problema e neste caso a dificuldade residiu aí: sabia que a direcção não estava normal, mas dada a minha inexperiência de mecânica e o facto de estar longe de qualquer especialista tornava as coisas complicadas. E ainda depois do problema estar identificado teria de encontrar a oficina para ajudar a fazer o trabalho e, mais importante ainda, teria de ter a peça para substituir.
 
Neste aspecto, posso agradecer aos presidentes de alguns países africanos por escolherem para a sua guarda as melhores motas do mundo: BMW´s.
Mesmo estando em África as coisas não podiam ser mais fáceis para obter peças para a Miss Africa. Apenas o que é de rápido desgaste como pneus, filtros de ar, óleo, etc. é mais difícil.
Será certamente mais fácil arranjar um motor completo para um modelo como o meu (GS 1100) do que um jogo de pneus novos nesta região.
 
A minha estrela brilhou (uma vez mais): procurei, conheci as pessoas certas e a certa altura só tive de escolher as peças que queria.
Depois de descobrirmos a origem do problema (os dois sinoblocos que fazem a ligação das forquilhas com a "ponte" da direcção estavam desfeitos) foi "apenas" uma questão de tentar arranjar as peças usadas de uma outra mota e aplicá-las.

Das experiências que vivi neste país só posso dizer bem do seu povo, pela sua simpatia e generosidade. Acabei por conhecer boas pessoas que me ajudaram sem terem qualquer outro interesse que não fosse a amizade.
Estou-lhes muito grato por isso e ainda neste momento, estando avariado em Libreville, me telefonam a saber se preciso de algo.

Porque nunca é demais agradecer, aproveito para enviar um forte abraço aos meus amigos Elvis (guarda e mecânico  da guarda-presidencial) e Frederic Batanga (dono de uma das maiores empresas de segurança na capital e um amante das duas rodas).
 
MERCIS À MES AMIS CONGOLAIS ELVIS E BATANGA!!!

Depois do Elvis me ter oferecido as peças que precisava (e ainda uns discos novos para a Miss e um cubo para a roda da frente, que acabei por não trazer pois era bastante pesado) e o Frederic ajudar a encontrar a oficina com uma prensa para fazer o trabalho de substituição, eu e a Miss estávamos prontos para de novo rolar.




A minha "garagem" durante uma semana e a Miss uma vez mais despida


A ponte da direcção da Miss e uma emprestada




Ida à casa do Elvis escolher as peças que queria. Acabei por sair de lá com uma roda e forquilha completa para desmanchar para peças


A Miss estava pronta para rolar



Volta pela bonita cidade de Brazzaville e a sua imponente basílica


Com as motas prontas ficámos ainda mais uns dias para tentar ajudar outro viajante, um checo residente na Zâmbia que, com os seus 73 anos, está determinado em chegar à Europa no seu Land-Cruiser. Tendo optado por fazer a travessia do rio Congo numa barcaça estava há já uma semana à espera de grua para retirar o carro do porto. Uma vez que não fala francês, toda a burocracia e sonolência dos trabalhadores do porto fazia com que o víssemos todos os dias chegar ao hotel, no final da tarde, sem qualquer desenvolvimento.
O Olivier resolveu ficar e ajudar o senhor. Precisou apenas de um dia e meio e depois disso o carro estava fora e pronto a seguir viagem.

Finalmente prontos para seguir viagem estávamos também nós e assim no domingo de manhã, depois de me despedir da "noite" em Brazzaville, estava preparado para me fazer à estrada e conhecer melhor aquele país.
O Olivier estava mais atrasado na preparação e resolvemos então separar-nos.
A verdade é que estamos os dois habituados a viajar sozinhos e  depois de vários meses nesse registo, seguindo apenas a nossa intuição, com os nossos planos individuais e com os nossos próprios ritmos, é difícil viajar acompanhado.
Para mim e para o Olivier foi melhor assim e senti-me bem em rolar sozinho. Não sabia onde iria dormir naquela noite, quantos quilómetros iria fazer mas estava feliz desse modo.


Na noite por Brazzaville

Despedida do Hippocampe Hotel
(um do casal da fotografia viaja por África num WW antigo na companhia do seu pastor-alemão...)


Segui então sozinho, eu e a minha Miss rumo a Oeste. A ideia seria chegar a Dolisie uns dias depois e rumar a Norte em direcção ao Gabão.
A estrada que sai da capital em direcção a Oeste, ao longo da fronteira com a RDC é famosa por duas razões. A primeira devido aos seus quilómetros de buracos, areia, muita lama na época de chuva, tornando-a praticamente intransponível nessa altura.
A segunda razão é bem mais perigosa e exige mais respeito, uma vez que passa em território ninja.
Para se perceber quem são os "ninjas" deixem-me tentar resumir os últimos anos políticos no Congo.
 
 
Sassou, o actual presidente do Congo foi em 1992 eliminado nas eleições pelo professor universitário Pascal Lissouba. Sendo natural de uma região do sul do país, Pascal prometeu devolver novamente o poder aquela zona do país e, uma vez no poder, apoderou-se de muitos dos rendimentos dos enormes recursos do Congo para beneficio próprio. Como muitos outros fez desaparecer biliões de dólares do seu país e usou a sua milícia (os chamados Cocoyes) para "intimidar" os habitantes das outras regiões do Congo.
Em 1993 a situação descambou em guerra civil com os apoiantes do ex-presidente Sassou (chamados Cobra) de um lado e os Cocoyes apoiados pela milícia do Primeiro Ministro Kolelas (os chamados Ninjas).
Lissouba continuou no poder até 1997 quando os soldados de Sassou entraram em Brazzaville e o fizeram partir. Nessa altura muitos habitantes civis partiram para o mato e milhares morreram se não pelas balas, de má nutrição.
Em 1999 a guerra civil continuava desta vez entre Cocoyes e Ninjas.
Pressionado pela comunidade internacional Sassou resolveu legitimar o seu poder com eleições democráticas (sobre a relação entre a comunidade internacional, África e a chamada "democracia" há tanto que se pode dizer), que obviamente ganhou com 90% dos votos.
De salientar que nenhum dos seus principais adversários (Lissouba e Kokelas) teve "autorização" para participar.
Assim, sem surpresa, a violência reapareceu depois das "eleições democráticas" entre Ninjas e forças governamentais mas um acordo de paz foi assinado em 2003 mantendo as coisas menos instáveis.

Porém, para dizer a verdade, sai de Brazzaville rumo a Oeste preocupado apenas com os buracos e a areia que sabia que iria encontrar pelo caminho.
Uma hora depois de deixar a capital começou a areia. Ali, sabendo faltarem quase mil quilómetros até voltar a sentir o asfalto de novo, apercebi-me da sorte que tinha tido em ter conseguido as peças para a direcção que, mesmo usadas e longe de estarem a 100%, permitem-me enfrentar as estradas de areia com outra desenvoltura.

As estradas de África, aquelas que sempre gostei, com a sua cor característica, todo o ambiente das aldeias (por qualquer aldeia que passasse, milhares como devem imaginar, crianças e adultos se levantavam de espanto ao ver-nos passar; muitos apenas acenavam, outros gritam), os cheiros e finalmente a floresta eram tudo o que tinha sonhado.

Estar ali, sem prazos, nem pressa, podendo parar sempre que quisesse, falar com as pessoas, tirar fotografias, viver tudo no meu ritmo, era tudo o que sempre quis quando comecei esta viagem.
 



Aqui começava a areia. Asfalto só dali a quase mil quilómetros.




Começava também esta África tão especial



Nem tudo era fácil.
Aqui depois de uma queda tive quase trinta minutos para levantar a pesadona Miss





Os camiões e o estado da "estrada" eram um desafio: estava finalmente no Congo que imaginei


Na primeira noite acampei no espaço de um mótel numa das vilas que encontrei pelo caminho.
No dia seguinte continuei viagem, bem cedo rumo a Dolisie. A estrada era muito difícil, com bastante areia e valas causadas pela chuva e o pior eram os camiões que, além da poeira que levantavam, eram um perigo enorme na condução pois nem sequer abrandavam ao ver-me no seu caminho.
Nunca, como naqueles dias levei com tanta poeira. Mesmo assim, coberto de terra, em estradas de areia, com camiões e vala provocadas pela chuva, a Miss continuava impecável, rolando com aquela barulheira característica da sua ponteira Akrapovic.

Pelo caminho cruzei-me com um inglês que vinha numa GS1200 desde Londres. Trocámos algumas impressões, dicas e sugestões e seguimos os respectivos caminhos.
Ele não virá nenhum viajante desde que sairá do Benim, muitos milhares de quilómetros para Norte.

No final de cada dia, coberto de poeira e suor, mal alimentado, com o rabo dorido e as costas em mau estado depois de passar o dia a conduzir de pé, tinha um sorriso. A vida corria-me bem: não tinha problemas com a mota, tinha algum dinheiro no bolso e passaporte.
Podia continuar viagem e cumprir a meta de chegar a Portugal.
 
Afinal foi isto que eu escolhi fazer; era ali que eu decidira estar.
Mesmo sem um bom café, um prato de comida quente ou sequer uma almofada (lamento pai, a almofada que me mandaste de Portugal chegou com o pipo avariado :) ), estou a fazer aquilo que quero e desde que a mota ande, eu esteja bem de saúde e saiba que tudo está bem com a família "lá na terra" fico feliz.
 
 
Paisagens magníficas


Aqui depois de uma "queda" ligeira depois de um camião me ter cortado o caminho


Aí vem outro camião.
Só resta colocar a viseira do capacete para baixo, parar e preparar-me para a poeira


Encontro com um motard inglês


 Sempre as crianças...





Cenários bonitos e alguns encontros curiosos



PASTIS: a bebida (licor de anis) mais famosa do que cerveja por estas bandas 



Aqui uma paragem para abastecer-me de água (tive de dar à "bomba")




Vida de mato: o balde para lavar-me e o belo do pequeno-almoço


O Congo é um país extraordinário. A região por onde passei é muito bonita e tenho pena de não ter ido para norte, onde ficam as florestas daquele país. Noutra altura talvez o faça.


A caminho do Gabão 







Perto da estrada algumas mulheres cantavam enquanto apanhavam peixe num riacho perto. Parei e fiquei um pouco. São momentos como este que me fazem viajar.


 


Esta é a estrada de acesso à principal fronteira entre o Congo e o Gabão 
 

Dias depois a chegada à fronteira com o Gabão
(onde o filho de um funcionário da migração quis sentar-se na Miss)


Cheguei assim ao Gabão e além das estradas terem melhorado pouca coisa se alterou.
Dou graças por isso.


"Como a malária, África deixa-nos sempre qualquer coisa no sangue. Nunca seremos totalmente brancos outra vez."