terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Zanzibar (1/2)


Para entender toda a história que encerra Zanzibar deve saber-se que a presença humana neste local remonta a mais de 20.000 anos.

Zanzibar é um arquipélago formado por uma ilha com o mesmo nome e uma vizinha (a ilha de Pemba) e forma uma estado semi-autónomo da Tanzânia.
Apesar de fazer parte da Tanzânia, Zanzibar elege o seu próprio presidente, que funciona como chefe do governo e tem ainda uma assembleia denominada "Conselho Revolucionário".

Já estava um pouco cansado da agitação comum de uma cidade e cheio de vontade de apanhar o barco e rumar a Zanzibar.
Zanzibar sempre teve para mim um significado especial, sempre guardou uma áurea de aventura e de exotismo.
Era ali que chegavam alguns dos primeiros exploradores que deram a conhecer a "desconhecida" África Meridional ao Ocidente e dali partiam e chegavam as expedições nesta zona do continente.

Deixei a mota a descansar em Dar Es Salaam e apanhei o barco para Zanzibar. Existem barcos recentes, com muito bom aspecto, rápidos e confortáveis. Também existem os antigos, mais "africanos", sem grande conforto mas mais económicos e por isso utilizados pela gente local. Não foi uma escolha díficil: em vez de duas horas demorei quase o dobro mas fui com o resto dos locais no "Flying Horse" (podia ser um bom nome a dar à minha mota AFRICA).
Centenas de pessoas enchiam o barco, ocupando cadeiras, escadas de acesso aos 3 pisos do barco e corredores. Por um segundo pensei naquelas noticias que costumam passar no telejornal sobre naufrágios em países de 3º mundo, sempre com a mesma aparente causa: excesso de pessoas. Mas é assim que gosto de viajar, sempre que possível: como todos os locais. E assim foi, depois de umas horas estava a chegar à paradisíaca ilha de Zanzibar.



Saída de Dar rumo a Zanzibar (pode ver-se nas imagens a Catedral e o mercado do peixe)




Viajando com os locais no "Flying Horse"

 
Ali, à medida que o barco se aproximava de terra, com vista sobre a cidade velha (Stone Town), fui imediatamente transportado pela imaginação até à África dos grandes exploradores.
 
Para entrar na Ilha de Zanzibar é necessário passaporte e este é carimbado à entrada e saída como se de um país diferente se trata-se. Também a bandeira é diferente da Tanzaniana.

O coração de Stonetown, a parte mais antiga e carismática da ilha, é um labirinto de ruas sinuosas preenchidas por casas, pequenas lojas, bazares e mesquitas. Pelas ruas, estreitas demais para passarem carros, circulam pessoas, bicicletas e motas.

Não foi fácil encontrar um sítio para ficar na cidade. Claro que existem dezenas de hóteis com muito bom aspecto mas proporcionalmente caros.
A grande parte dos turistas que visita a ilha chega de avião, com hotel marcado, ficando geralmente junto ao mar, em grandiosos e elegantes espaços.
O grupo dos "pé-descalço", classe na qual me insiro, procura sempre o mais barato. Geralmente acabo sempre em ruas secundárias num "backpacker" simples, sem qualquer mordomia, mas quase sempre relativamente confortável e limpo.
E assim foi desta vez, tendo ficado na terceira escolha (os outros estavam cheios): um local muito simples, numa rua perdida no meio da cidade mas barato, baratinho (como tanto gostamos).

Aqui passei alguns dias podendo sentir a cidade com toda a calma, apreciando a sua arquitectura, explorando as ruas, sistematicamente perdendo-me e voltando-me a achar junto à praça maior, com vista para o mar.
A arquitectura na cidade é única e incrivelmente bela, com influências Árabes, Persas, Indianas, Europeias e Africanas. Poucos lugares no mundo sofreram tanta influência junta como aqui e isso pode ver-se e sentir-se.
Por essa razão a cidade está incluída na lista da UNESCO desde 2000.

O nome "Cidade de Pedra" aparece do uso de pedra de coral como o principal material de construção (como já tinha visto em toda a costa desde a Ilha de Moçambique).
Os edifícios tradicionais têm uma "baraza", um longo banco em pedra na parede exterior, usado pelas pessoas para se sentarem, descansarem e socializarem. Outra característica marcante em muitos edifícios são as grandes varandas e as portas de madeira ricamente esculpidas. Os dois tipos de portas podem ser distinguidas: as de estilo Indianas têm os topos arredondados e as de estilo Árabe são rectangulares.








Stone Town




Pormenores de portas típicas de Zanzibar





Memórias da "velha cidade"
Pouco tempo antes do sol se pôr a cidade muda. Nas labirínticas ruas do interior ouve-se com grande volume o chamamento para a reza, junto ao mar, na estreita língua de areia da parte antiga da cidade joga-se futebol, passeia-se ou dá-se o último mergulho do dia. 
Em frente à "Casa das Maravilhas", antiga residência de um sultão e um dos edifícios mais emblemáticos de Zanzibar, dezenas de balcões começam a ser preparados para vender uma variedade imensa de comida. Miúdos competem entre eles em saltos acrobáticos para a água, enquanto uma pequena multidão assiste, entretida com o seu sumo ou gelado, aquele espectáculo. 
A luz das seis da tarde, com a sua cor laranja suave, enche de vida todo o ambeinte e torna tudo ainda mais especial.













Ambiente num qualquer fim de tarde junto ao mar em Stone Town






"Mercado de comida" (exemplo de menu: espetadas de peixe com salada, pizza de vegetais, acompanhado por um sumo feito a partir de cana de açúcar com um pouco de gengibre e uma panqueca de chocolate para a sobremesa)


A longo dos séculos Zanzibar tem sido uma grande produtora de especiarias, incluindo o cravinho, a canela e a pimenta. Esta última era uma importante base para trocas comerciais (especiarias e escravos) entre a Ásia e África.

Estas especiarias crescem em plantações fora da cidade de Stone Town e assim juntei-me a um pequeno grupo de turistas para fazer a conhecida "Spice-Tour".
Tive a experiência de sentir, cheirar e em alguns casos provar algumas das mais conhecidas especiarias que sempre vi lá na cozinha em casa, plantas e frutos.
Mais importante ver de onde vêm, como se extraem e quais os suas principais utilizações.
Noz moscada, gengibre, baunilha, vários tipos de pimenta, mentol, cravinho, etc. foram algumas das especiarias que o guia detalhadamente nos mostrou.   
 
Um dia bem passado, cheirando, comendo e aprendendo. A meio da tarde ainda fomos dar um mergulho a uma das excelentes praias a norte e visitámos uma antiga gruta onde escravos eram escondidos depois da abolição da escravatura no final do século XIX.















 
Existe um prémio a quem conseguir identificar todas as especiarias, plantas e frutos nas fotografias






Estes estudantes foram dar passeio à praia e eu estava lá para cobrir o acontecimento :)



Como o cenário pode mudar de repente


Gruta que ajudou a esconder o tráfico de escravos em Zanzibar

No dia seguinte as praias paradisíacas de areia branca e fina, quase desertas, contrastando com o frenesim da cidade de Stone Town, esperavam por mim.  

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dar es Salaam ( "Céu de Paz")

 
Dar es Salaam significa "Céu de Paz" em suaili. A sua história é recente e só no final do século XIX é que ganhou relevância como porto marítimo, ponto de passagem de missionários cristãos rumo a Zanzibar e sede do governo colonial germânico. Até então Bagamoyo, uma cidade costeira mais a norte, era bastante mais desenvolvida que Dar.

Fiquei alojado numa modesta pensão no centro da cidade e depois de alguns dias a dormir na tenda soube-me bem o conforto de uma cama limpa e uns pequenos "mimos" como serviço de lavagem de roupa. Aproveitei o preço acessível da dormida (5 EUR) e deixei-me ficar ali durante uns dias antes de apanhar o barco para Zanzibar.
O centro da cidade desenrola-se ao longo de uma grande avenida marginal de onde se vê o enorme porto marítimo onde dezenas de barcos porta-contentores esperam a sua vez para descarregar. Mais para dentro  as ruas são estreitas e cheias de comércio onde vendedores de rua, pequenas lojas e restaurantes enchem esta parte da cidade de vida.
Tive alturas em que tudo me pareceu idêntico a uma qualquer cidade indiana: trânsito intenso, lixo nas ruas, "autocarros" apinhados de gente e...indianos. Toda a cidade, por onde andei, é dominada por indianos, desde o comércio, aos restaurantes e hotéis.

Vendedores de rua em pleno centro da cidade


Arquitectura colonial


A baía da cidade


A Catedral de  São José, um dos monumentos marcantes da cidade 
 
Porém, nem céu, nem paz encontrei e o melhor de Dar ficou foi uma ida ao mercado de peixe da cidade num fim-de-semana.
Centenas de pessoas negoceiam peixe e marisco, acabado de sair dos barcos, a poucos metros de distância e todo aquele frenesim de cores, gritos, com muito cheiro a peixe à mistura, faz daquele cenário um espectáculo a apreciar.
A maior parte do peixe ali vendido destina-se a revenda, deste modo são as próprias vendedoras (zungueiras) que ali vão fazer o negócio.
Em grandes mesas são entornadas as cestas cheias de peixe onde depois é leiloado o produto.

 

 

 O mercado do peixe
 
Enquanto este espectáculo decorre outros acontecem em simultâneo: os barcos chegam à zona de praia onde são descarregados por centenas de homens que esperam, o peixe é colocado em cestas de palha e transportado para dentro do mercado. Água, sumos e comida são vendidos a quem por lá passa. O marisco é trazido também e negociado à parte, o peixe comprado é mandado arranjar numa parte do marcado especifico para esse fim, existindo também um mercado para as suas entranhas. Todo este movimento com cenas curiosas como os pescadores a descansarem depois da pesca enquanto o "amolador" afia mais uma tesoura, o casal a comer um gelado no meio daquela confusão, enquanto o luxuoso barco passa cheio de turistas para Zanzibar, os gatos a apreciarem com água na boca todo aquele entra e sai de peixe, etc.   

 
 


 Imagens do "outro mercado"
 
Geralmente gosto de mercados locais. Aí, muito mais que nos monumentos ou museus que cada cidade tem para oferecer, posso estar em contacto com os habitantes locais onde por momentos vivo um pouco aquele mundo, o mundo deles, tão diferente e longe do meu. Esses momentos podem ser experiências marcantes para a nossa vida, ajudando o crescimento interior de cada um. Tento viajar com esse  fim.

Do outro lado da rua outro cenário incrível. Num grande espaço coberto, largas dezenas de grandes frigideiras estão ao fogo, fritando peixe e choco. Todo aquele ambiente de fumo e óleo, com um cheiro intenso e os sons da fritura parece saído da época medieval.
Depois de fritos, choco e peixe vêem-se a serem vendidos em qualquer rua da cidade.


 







Fritura de peixe e choco e sua venda nas ruas da cidade
 
Dias depois estava a embarcar para a legendária ilha de Zanzibar. Chegar aqui tinha sido um sonho de há muito e estar ali provou ser muito especial nesta viagem.
 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Tanzânia, rumo a Norte: de Lindi a Dar Es Salaam


Passada a noite em Lindi, uma pequena cidade costeira com fortes influências árabes e indianas, continuei para Norte até Kilwa Masoko. Masoko é uma tranquila vila na costa do Índico, ponto de acesso à ilha, Kilwa Kisiwani, noutros tempos o mais importante local de troca na costa Este africana.

A partir daqui tornou-se mais evidente que estava em terra suaíli. Os suaílis são uma etnia, muçulmana, que se encontra principalmente nas regiões costeiras da Tanzânia e Quénia, bem como no norte de Moçambique.

Depois de alguns dias na estrada soube-me bem encostar a montada à sombra e gozar o sol e as belas praias do Índico. Afinal não é só em Moçambique que existem boas praias. Aqui também as praias são de areia branca com o mar morno.
Assim, montei a rede e descansei.
 


 Por fim o descanso merecido em Kilwa Masoko
Na vila não havia luz e a partir do final da tarde, quando o sol se punha, era uma aventura  atravessar a vila à procura de sítio para jantar. Aí descobri o prazer da comida local: pilau. Pilau com tudo. Com peixe frito, galinha, banana, etc. Todos o comem por aqui.
(no momento em que escrevo estou em Lamu, na costa queniana, a norte de Mombassa, e as minhas refeições passem quase sempre por...adivinhem...pilau).
Tentando explicar em linhas gerais o que é isto do pilau posso dizer que é um tipo de arroz muito temperado com pedaços de carne de cabra (neste caso). Delicioso!

Adiante; dois dias de praia e decidi ir explorar Kilwa Kisiwani, conhecida simplesmente por Kilwa.
Há 500 anos atrás, como o maior centro de comércio em toda a costa Este africana, este era o local dos grandes sultões e o centro da rentável rede de troca de ouro e ferro do Zimbábue, escravos e marfim de toda a África Oriental, por tecidos, porcelana, jóias e especiarias da Ásia.
Hoje as ruínas dos edifícos swalis  são consideradas as mais significativas da Costa Este de África, tendo sido declaradas património mundial pela UNESCO.

De dhow segui até à histórica ilha, onde com um guia explorei ao máximo as ruínas deixadas por diversos povos ao longo da sua história.



Travessia para Kilwa Kisiwani

Em 1331 o mundo ocidental ficou a conhecer esta ilha tendo sido admirada a "beleza da grande cidade, com edifícios construídos de pedra de coral, normalmente com um único piso e pequenos compartimentos separados por maciças paredes e com telhados formados de placas da mesma pedra, suportados pelas paredes e por estacas de mangal".
Com "estruturas formidáveis de vários pisos e algumas belamente ornamentadas com pedra esculpida nas entradas, tapeçarias e nichos cobrindo as paredes e o chão com carpetes... Claro que estas eram as casas dos ricos, porque os pobres viviam em casas de palha, vestiam-se apenas com um pano sobre as ancas e comiam apenas papas de milho..."

Como local muito importante na costa africana também aqui os portugueses fizeram história.
Em 1500, a caminho da Índia, Pedro Álvares Cabral visitou Kilwa e referiu-se às belas casas de coral e seus terraços, pertencentes a "mouros negros".
No início do século XVI, Vasco da Gama tomou a ilha tornando-a tributária de Portugal. Como o sultão recusou pagar o seu tributo as forças de D.Francisco de Almeida, primeiro Vice-rei do Estado Português da Índia, conquistou a ilha e iniciou-se imediatamente a construção da primeira fortificação portuguesa de pedra e cal na África Oriental. O Forte tinha como função principal proporcionar abrigo dos viajantes na rota para as Índias e também para defesa contra eventuais inimigos.


Ruínas do antigo forte

Porém, poucos anos depois o forte foi abandonado e arrasado uma vez que a sua manutenção era dispendiosa tendo a Coroa Portuguesa se concentrado  em Moçambique.

Nessa altura a ilha foi ocupada por uma força árabe e voltou a ser uma cidade-estado swahili até finais do século XVII, quando se tornou num protectorado de Oman, perdendo grande parte do seu poderio. Em 1843, a cidade vizinha de Kilwa Kivinje, a cerca de 20 km a norte, na costa, passou a ser utilizada como porto e Kilwa Kisiwani foi abandonada, tendo os seus edifícios tornado-se ruínas.






Ruínas e pormenores da ex-grandiosa ilha

Apesar de pequenas, diversas aldeias continuam a existir na ilha. Se os grandes e importantes edificos já se encontram em ruínas, muito pouca coisa parece ter-se alterado sobre a maneira de viver da população pobre (a única que ficou):  a água continua a ser tirada dos poços, a ilha continua a não ter energia eléctrica, as casas mantêm-se de adobe, os homens saem para a pesca nos tradicionais dhows, as mulheres cuidam das crianças, da casa e da pequena horta.
A cassata (doce típico de açúcar e sementes de Sésamo) continua a ser feita da maneira tradicional. E que bom é este doce...
O modo de vida destas pessoas continua como era desde à muito tempo.


A deliciosa cassata



Olhares curiosos


O orgulhoso habitante que tem um painel solar no telhado para "carregar o telemóvel"


O valioso poço de água fresca


O regresso à costa


De volta à costa, Sábado,  visitei a feira local. Os Sáris coloridos das mulheres marcavam a paisagem , esvoaçando pelas ruas na cidade. As crianças, sempre as crianças, corriam atrás de mim para mais uma "foto please".



Mercado de Masoko

Domingo bem cedo arrumei toda a bagagem, apertei-a bem na mota, vesti o fato completo, tomei o pequeno almoço, paguei a estadia, agradeci, montei-me na mota e ... nada. A bateria estava morta. Tinha estado no dia antes a carregar o computador usando a entrada para o efeito na mota e agora nada de conseguir o arranque para seguir para Dar Es Salaam.

"Sem maca."
 
Quatro horas depois andava pelas ruas atrás de um gerador (sim, toda a cidade não tinha energia), de bateria na mão, para tentar partir nesse mesmo dia. Achado o gerador, depois de negociar o preço para me carregar a bateria, por lá fiquei mais duas horas até carregar o suficiente para o arranque.

Pouco depois, de bateria montada e tudo ok parti para Norte rumo a Dar Es Salaam. Era meio da tarde e sabia que iria chegar ao meu destino já no final do dia. Não sabia, porém que me esperava um troço de quase 70 quilómetros de estrada de areia.
Depois de cair umas quantas vezes (podiam ter sido mais...), entortar o pedal do travão, empenar (um pouco mais) uma das malas e rasgar (um pouco mais) o blusão cheguei à capital económica da Tanzânia: Dar Es Salaam.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Atravessando o Rovuma rumo à Tanzânia (Dia 0)


Uma das regras básicas para viajar por qualquer país é... trazer dinheiro no bolso. Pode parecer óbvio mas por vezes o hábito ocidental de usar os cartões de plástico em todo o lado faz esquecer que há dinheiro em papel e nestas andanças é fundamental andar com mais do que julgamos ser o essencial. Umas centenas de dólares americanos num compartimento "secreto" para usar em caso de emergência deveria ter sido considerado por mim. Devia, pois...

Até este momento tem sido muito fácil, em todos os paises por onde tenho passado, ir a um ATM e levantar a quantia que preciso, em moeda local.
No caso de Mueda não existia ATM. Uma vez que já tinha os meus 50 USD para o visto da Tanzânia, necessário para entrar no país, e uns poucos meticais para a gasolina, segui para a fronteira confiante que, apesar de pouco, o dinheiro que tinha daria para cobrir todas as despesas até à próxima cidade com caixa automática.
Acontece que não dava e eu já devia saber melhor.

A estrada até à fronteira é péssima. Existem troços com muita areia, por vezes com camadas de pó semelhante a "pó talco" onde as rodas se enterram e as quedas tornam-se frequentes.


Um troço bom na "estrada" até à fronteira com a Tanzânia

Por uma razão que desconheco a poucas centenas de quilómetros de todas as fronteiras por onde tenho passado (talvez a excepção seja aquela que usei entre a Namíbia e a África do Sul) as estradas  tornam-se muito díficeis, com areia ou com autênticas crateras no asfalto, tornando a condução uma autêntica prova de resistência para mim e para a mota. Sempre que rumo em direcção a uma fronteira de um qualquer país em África vou sempre mentalizado que irei enfrentar o pior. Como se o país onde ainda estou me lançasse o seu último desafio; assim foi ao sair de Angola, da África do Sul a entrar no Lesoto, de Moçambique para a Tanzânia e mais para a frente da Tanzânia para o Quénia. Todos se mostraram desafios dificeis de serem ultrapassados. 

Desse modo, levantar a mota carregada, uma e outra vez na areia, muitas vezes sem conseguir ter base de fixação dos pés para erguer a mota, tornou-se muito desgastante e quando por fim cheguei à fronteira estava coberto de poeira, suor e exausto.

Um sorriso falso depois de ter estado 30 minutos a tentar levantar a mota na areia
 Era quase meio-dia e depois de quase duas centenas de quilómetros de terra batida e areia dei por mim a pisar de novo asfalto; um novo e brilhante asfalto. Dentro de um pequeno casinhoto de palha dois guardas fizeram-me parar e identificar-me. O registo da matricula da mota, nome e nacionalidade foi feito num grande bloco.
Deram-me os parabéns: fui o primeiro português a atravessar de mota a Ponte da Unidade, mais recente ligação entre Moçambique e Tanzânia.

Guardas junto da fronteira 

Segui uns quilómetros mais à frente até ao posto de emigração, local onde me disseram que teria de receber o carimbo de saida de Moçambique. Chegado lá deparei-me com as instalações, uma dezena de gabinetes em alvenaria de blocos, pintados, com bom aspecto mas vazios.
Um pouco mais à frente, dentro de um jango três homens dormiam de cuecas aproveitando a sombra e a brisa vinda do Rovuma, um pouco mais abaixo.
Um deles chamou-me quando eu já me preparava para subir na mota e atravessar a ponte. Eram os funcionários da alfândega.

Enquanto se vestiam pediram-me os documentos: passaporte e a folha de importação temporária da mota.

"Isto já não está válido!" - disse-me um deles examinando com atenção o documento de importação.

A verdade é que me esqueci de revalidar este documento, apenas válido por 30 dias, quando pedi a extensao do meu visto para moçambique.

-"Tens de pagar a multa de 5000 meticais. Não te posso deixar passar" -disse-me um deles muito sério.

- "Pois, mas não me podes fazer isso. Não tenho mesmo dinheiro aqui comigo. Temos de resolver isso de outro jeito. O pior é que nem tenho dinheiro para te dar uma ajuda para me ajudares a mim..." -disse-lhe, abrindo a carteira e mostrando os poucos meticais que tinha.

"Depois de ter feito este caminho todo temos de arranjar uma solução. Tenho muito pouco dinheiro que preciso para por alguma gasolina mais à frente até poder chegar a uma cidade e usar o ATM". - Rematei.

Entretanto o meu passaporte foi levado por outro funcionário para receber o carimbo de saida do país.

Apesar de ser uma fronteira com muito pouco movimento um carro chegou, vindo da Tanzânia em direcção a Moçambique, com dois senhores. Quando fui a um dos gabinetes buscar o meu passaporte um dos senhores estava sentado a ser atendido.
Perguntou-me se estava tudo bem e expliquei-lhe o que se estava a passar.

"Dá-lhe algum dinheiro que ele deixa-te passar"- disse-me o senhor.

"O problema é que tenho muito pouco dinheiro. O pouco dinheiro é para a gasolina e mesmo assim não sei se chega. A cidade mais próxima do lado da Tanzânia com ATM é Masasi a quase duzentos quilómetros e nem sei se vou conseguir aí chegar."

"Espera, eu empresto-te algum dinheiro para a gasolina" -disse-me o senhor.

Mostrei-me envergonhado e reticente em aceitar mas vi que era a minha única chance de chegar a Masasi. Assim, aceitei a oferta com alguma vergonha mas imensa gratidão.
Falando um pouco mais com o funcionário que me teria de "facilitar" a saída de Moçambique com um documento caducado e depois de ele me ver sem alternativas (depois de eu lhe ter recusado como presente as garrafas metálicas de águas que tenho acopoladas a uma das malas) este deixou-me seguir com um sorriso no rosto.

"O presente fica para a próxima...resto de uma boa viagem!"- disse-me

Agradeci-lhe, agradeci a todos e parti, atravessando o Rio Rovuma, entrando com um sorriso nos lábios na Tanzânia.


Atravessando o Rovuma pela Ponte da Unidade


Logo do outro lado da ponte instalações semelhantes às de Moçambique estavam à minha espera. Mas aqui, em vez de funcionários em cuecas a dormirem debaixo de um jango, embalados pela brisa do Rovuma, esperavam-me uma dezena de tanzanianos de fato e a gravata, dentro das suas salas com ar condicionado.
Em cerca de 5 minutos, depois de pagar os 50 USD caribaram-me o visto permitindo-me permanacer 90 dias no país. Agora teria de me dirigir à sala do lado para legalizar a entrada da mota. Nesta altura, confesso que fui com um frio na barriga, com receio que exigissem algum documento, algo que eu não tivesse como o Carnet.
O facto de só ter practicamente o dinheiro que o bom senhor tanzaniano me ofereceu também não ajudou a que entrasse naquela sala tranquilo.

Quando abri a porta dois funcionários estavam na sala. Durante os primeiros quinze minutos estive  a explicar de onde vinha, porque estava a fazer a viagem, os países que tinha atravessado, à quanto tempo durava, quanto tempo mais iria durar, qual o destino final,  que tipo de mota era aquela, quanto custava, qual era a velocidade máxima, como conseguia levar a bagagem suficente para tanto tempo de viagem, etc. A conversa estava boa, eram simpáticos. Deram-me os parabéns por ser "tão aventureiro e corajoso".
Por fim, todos sorridentes, pediram-me o Carnet.

"Não tenho Carnet. A mota tem a matrícula de Angola e lá ninguém sabe o que é isso, ninguém passa esse documento."- disse-lhes.

"Ok, não há problema. Passamos-te um documento de importação temporária válido por 30 dias e extensivel a 90."

Sorri. Saiu-me um peso enorme de preocupação dos ombros.

"Este documento custa 25USD". - Diz-me um dos simpáticos funcionários.

"Pois, mas  eu não tenho dinheiro... Não sabia que tinha de pagar tal coisa. Tenho muito pouco e era para a gasolina. Não chegam a 10 dólares."- desculpei-me eu.

Disse-lhes que no pior dos casos iria a Masasi, duzentos quilómetros de terra batida mais à frente. Iria apanhar o "autocarro" no dia seguinte e iria levantar o dinheiro necessário e regressaria no final da tarde. Falei de modo sincero. O que poderia mais fazer eu?!

Depois de mais de trinta minutos ali na sala a discutirem a melhor maneira de conseguirem que eu entrasse no seu país olharam para mim e disseram que tinham de me ajudar.

"Vamos emprestar-te o dinheiro que está em falta. Com os teus 10 dólares mais os nossos 15, já consegues entrar" - Disseram. E remataram. "Somos todos seres humanos e vemos que estás em dificuldade. Iremos ajudar-te".

Agradeci-lhe muito (como devem imaginar) e despedi-me calorosamente. Estava finalmente na Tanzânia. Mesmo com pouca gasolina, a olhar de minuto a minuto para o painel, consegui fazer os duzentos quilómetros em terra batida até Masasi e levantar dinheiro. Enchi o depósito e almoçei. Eram cinco da tarde e tinha pouco tempo de claridade para alcançar Lindi. Quase duzentas pessoas rodearam a mota enquanto almoçava em Masasi, todos a apreciavam. Tinha de ser rápido e apesar de o meu dia já ser longo montei uma vez mais e rodei o punho com vontade até Lindi, onde cheguei já o sol se tinha posto.


 A rolar (finalmente) na Tanzânia rumo a Lindi